terça-feira, 10 de dezembro de 2013

R.M

Estava na escola que passou sua infância. Quadras poliesportivas. Um corredor estreito com muita iluminação natural de paredes brancas e azulejos azuis. Chegou na quadra coberta e com as arquibancadas razoavelmente cheias observando um jogo, se viu mais nova assim que passou pelos portões do ginásio. Estava em seus anos de glória. O ápice de suas habilidades. O corpo era de quando tinha 16 anos, já a mente sabia que aquele tempo havia passado e que de algum jeito estava o revivendo de outra maneira. Foi então passear pelos espaços que há anos não pisava. Relembrou como era. De frente para o ginásio olhou para trás e naquele corredor estreito viu um trenzinho de madeira carregando velas de diferentes cores em cada vagão vindo em sua direção. Inofensivo, lento, sem nexo. Olhou para a quadra externa e a viu. Do mesmo jeito que estava quando a conheceu e a viu pela primeira vez. Cabelos longos e pretos, blusa azul de regata justa, short jeans desfiado e tênis branco. Linda. Risonha. Gargalhando por alguma piada que as meninas do seu time estavam fazendo. Estranho... nunca haviam jogado antes. Nunca soube da existência dela no mesmo esporte, porém estavam ali, jogando agora no mesmo time. Ela com aquele sorriso branco veio em sua direção e a abraçou. Agora pareciam estar 10 meses atrás, quando estavam juntas pela primeira vez, só que a felicidade estava maior. Maiores brilhos nos olhos de ambas. Pensou enquanto a abraçava o quanto sentia muito por ter desistido dela quando teve a oportunidade de serem algo. 
De repente estavam a sós, no meio da quadra. Olhou para cima... neve? Sim, neve. Delicadamente caindo enquanto estavam de mãos dadas apenas se encarando. A perspectiva agora muda. Não vê o cenário pelos seus olhos, e sim como de alguém por fora. As rodeando enquanto se beijavam. Ela então pensa em voz baixa que se aquilo era o certo a se fazer, se era o momento de estarem ali, juntas, então algo avisaria. Foi nesse momento em que o trenzinho de madeira carregado de velas coloridas bate em seus pés, como se apontando uma direção. 
Elas abrem os olhos. Dão uma leve risada, como se a outra tivesse lido seu pensamento tão calado. A neve vira uma luz calorosa se dissipando aos poucos daquela cena que alguém observa de longe até não ver mais ninguém. 
Percebeu que quando a conheceu e teve sua oportunidade era sim a hora certa, porém foi precipitada. Enquanto seu corpo jovem tentou recriá-las novamente, sua mente sabia que era uma ilusão. Sim, um sonho. Tinha sido apenas um sonho a lembrando do que havia dito não. E do quanto gostaria de voltar no tempo, já que agora os papéis se inverteram. Não a via antes, e agora se tornou invisível.

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