segunda-feira, 30 de março de 2015

Fez sua própria cama

O jeito que arruma a cama pode dizer muito sobre si. 
Pelas cores escolhidas dos lençóis, das fronhas e do cobertor.
Se deixa bem estendidos ou soltos.
Se prefere alinhados ou assimétricos. 

Há muito apenas uma pessoa se deita naquele par de travesseiros. 
Há muito arruma com desvelo esperando o outro lado ser preenchido.
Acostumou-se a dormir do lado direito, 
sendo que o lado mais arrumado é o esquerdo.

Não sobrepunha um acima do outro,
sempre lado a lado,
descansando a cabeça em apenas um deles. 

O esquerdo esfria. 
Nunca realmente se aqueceu.

Chegado o dia quando necessitou erguer sua cabeça enquanto dormia,
a fim de melhorar sua respiração.
Utilizou o segundo travesseiro e a partir dai centralizou-os juntos. 

Notou o que sua esperança mostrava em mania:
deixar um espaço impecável para uma futura surpresa.
Rechear seu lado com afeto, sem nunca minimizar o cuidado, 
para que talvez um dia outra cabeça ali pudesse repousar.

Com a realidade veio a desesperança.
Morte de expectativa.
E seu ato, por mais nobre fosse, foi extinto aos poucos.

Muito tempo e incontáveis energias de sua boa vontade 
foram depositados em um espaço vazio.

Se se manteve tranquila o mérito não foi de outrem.
Se teve seu descanso e sono preservados foi por sua autoria.

Embora um de seus receios fosse permanecer sozinha
não havia notado 
que de fato nunca houve uma companhia.

Foi somente abstrata fé materializada em seu próprio pequeno abrigo.

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