segunda-feira, 25 de abril de 2022

3 em 1

And They Have Escaped The Weight Of Darkness (2010)


 Um.

Em 2017, após um término de relacionamento, eu ouvi pela primeira vez as músicas do compositor Ólafur Arnalds e desde então suas composições conseguem chegar em lugares e memórias que eu sequer sabia da existência. 
Sem precisar de uma palavra sequer, a sua melodia me teletransporta para dentro de mim e para a expansão do universo ao mesmo tempo. Se mágica existe com certeza esse é um belo truque que desenvolvi.
Por mais que eu não consiga fazer os outros sentirem o que eu sinto ao ouvir suas músicas, vez ou outra uma composição instrumental é personificada em alguém ou alguma época de vida.

Dois.

Constantemente, desde os meus 8 anos, sinto que pertenço a outro lugar... e sequer digo dentro do planeta Terra. Como uma eterna saudade de um momento que já vivi. Não sei detalhar, mas esse saudosismo aumenta quando encaro as estrelas. Sigo contando os anos que esse fascínio faz parte de mim, como um órgão vital. 

Três.

Ontem finalizei uma série chamada 'Heartstopper'. Sem muitos spoilers, mas é sobre descobrir a orientação sexual na adolescência, com todos os conflitos internos e externos dentro do ambiente escolar. 
Várias lembranças imediatamente surgiram e que foram guardadas, e que hoje consigo analisar e abraçar com afeto. Confesso que chorei em muitos momentos, pois os sentimentos que tive se espelharam nas cenas e vi a Lorena dos 10 aos 20 e poucos anos. 
Lembranças como a primeira menina que me apaixonei sem nem saber o que era paixão. 
Como eu descobri o significado da palavra homossexualidade e a sensação de pertencimento, alívio e desfecho naquele momento. Até então não sabia que iria sofrer com o preconceito, apenas me senti leve em finalmente por nome ao que eu sou.
O nervosismo em conversar com a primeira menina da escola que gostei, seja por MSN ou pessoalmente.
As festas que ia para encontrá-la e principalmente aquela à fantasia onde tive meu coração partido pela primeira vez ao vê-la com outra pessoa... e como ele se recompôs tão facilmente quando minutos depois quem estaria com ela seria eu.
Os seus perfumes e os meus.
Os momentos de reflexão e tristeza em cada lugar da escola: nas quadras de esporte logo cedo quando fazia uma neblina fria, no pátio onde ela posteriormente iria me pedir em namoro e no mesmo dia terminar, na sala da diretoria onde eu parei depois de desmaiar de ansiedade ao vê-la pós término, nos banheiros que matávamos aula para ficar juntas. Apesar de precoce dos 11 aos 13 anos, foram os sentimentos mais intensos que já tive.
Lembrei como se fosse ontem dos piores dias que sequer conseguia sair da cama sem estar deprimida e ter que enfrentar o mundo. E a sensação de dor no peito, como se um músculo tivesse sido rompido. Na minha cabeça não transparecia o quanto era pesado carregar tudo isso, mas se de alguma forma consegui expor tanto as partes boas quanto as ruins, tenho certeza que preencheria mais de 20 escolas daquela.
Vi também a primeira vez que me disseram "eu te amo" de uma forma romântica. E o quanto aquilo foi importante e impactante pra mim. Uma surpresa sem igual. Debaixo do prédio da 306 Sul, dentro de um abraço, taquicardia instantânea. 
E também revivi o momento onde quis afastá-la por sentir que eu estaria a atrapalhando ou dificultando sua vida, uma vez que ela não era assumida. Por sorte fui convencida do contrário e demorou até nos separarmos de verdade.
Toda essa nostalgia para me fazer olhar pra trás e ter orgulho de tudo isso. Dos processos, da intensidade, das novidades, das pessoas, e, principalmente, de mim. 
Permaneço sobrevivendo e seguindo em frente. Por mais que olhar pra trás ajude muito a entender quem somos agora e o que precisamos ter enfrentado pra estarmos aqui hoje.
Mal posso esperar para as próximas nostalgias e demais memórias guardadas que virão à tona. Afinal, recordar é viver e nos faz o ser único que somos.

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