O celular vibrou; seus olhos fizeram a leitura dinâmica daquela mensagem mais rápido que sua mente já conseguira. Não acreditou em uma sílaba do que lera e correu para saber de fato a veracidade do que lhe foi enviado. Era verdade. Ela faleceu. "Não, só pode ser piada, é um engano", tentava se iludir com a hipótese de ter sido sim uma reanimação com sucesso, porém haviam passado a equivocada notícia rápido demais. Até que recebeu cerca de 5 e-mails com a mesma lamentável confirmação, e mesmo assim não admitiu ser real. "Por qual motivo justo ela? Não é justo! Como uma vida tão especial e com tanta vontade de sobreviver pode simplesmente ir embora assim, do nada, por motivos tão pequenos?", ela questionava para si enquanto criava raiva do mundo. Não de todo o mundo, apenas do destino. Do inevitável. Do injusto. "E além disso ainda tenho que ver esses cretinos lamentando sua morte como se de algum jeito eles fossem a vítima. A vida perdida, o erro, foi com ela e não com vocês, maldição! Falsos chorosos, não compreendem o verdadeiro significado de 'faria tudo para que ela voltasse pelo simples fato de achar não merecido sua partida'?", amargurada com certas pessoas ela lançava suas maldições ao vento. Não conseguiu mais pensar; o silêncio permaneceu como um aconchego em tantas lágrimas já derramadas. Não entendia o motivo de seu desespero já que não eram tão próximas assim. Talvez pelo encanto e pela diferença que ela havia feito em sua vida, mesmo que em pequeno período de tempo e sem grandes aprofundamentos na amizade. Sua insônia já latente há tanto tempo agora era fraca comparado ao sentido. Quando acordou a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi obter mais informações sobre ela. Quem sabe fora apenas um pesadelo e boas notícias haviam de ser ditas? Só que eram apenas ilusões de sua mente. Seu pesadelo enfim concretizou-se quando leu o local e horário de seu adeus. Mais uma vez chorou com o coração já na sua vigésima vasoconstrição. Doia literalmente. Como soubera tarde demais do evento nada agradável que teria de ir, não por obrigação, mas por pura vontade, se arrumou mesmo assim. Aprontou-se como se fosse para a faculdade encontrá-la em apenas mais um dia letivo, e obviamente o sentimento de pesar não a deixou se enganar. Não seria como qualquer outro dia. Dirigiu rápido, como se estivesse atrasada, e de fato estava. Assim que entrou por aquele enorme portão, começou a acreditar um pouco mais em seu pesadelo. "Tantas pessoas, tantas vidas, tantos túmulos, e você está em um desses", caia seu pensamento juntamente com sua lágrima. Procurou o devido túmulo com pressa, como se fosse seus últimos segundos para se despedir, como se não houvesse amanhã, e realmente não houve sequer um ontem. Contava alto o número. "95, 123, 110... cadê o 113?" Não precisou mais contar. Era nítido qual era. Lotado de flores, coroas, faixas, conseguia ver e até sentir o cheiro da tristeza deixada ali há poucas horas. Conseguiu visualizar o desespero de quem acabara de deixá-la ali, pois fez o mesmo: abaixou, chorou, pôs as mãos frente ao rosto, pegou em algumas flores para tentar aceitar o real, e soluçava ali no meio de tantas presenças irreais. Sozinha no meio do cemitério, começou a sua conversa-oração. "Não sei bem o que te dizer, sabia? Só não consigo parar de chorar pensando que nunca mais irei te ver", ela tentava falar em voz alta. Já sentada ao seu lado, conversou e disse tudo o que já havia pensado, achado, e até suposto sobre ela, a vida, a morte e até pela ajuda. Finalizou seu longo monólogo com: "Saiba que para mim, você sempre será a mais inteligente e a enfermeira mais bem sucedida daquele lugar. E se me fosse dado a chance, faria de tudo pelo seu retorno. Sinto muito mesmo sua ida tão precoce, e a única certeza que tenho é de você estar em um lugar muito melhor, pois você é - e sempre será - uma pessoa magnífica. Perdoe-me por não ter te visitado quando tive oportunidade, mas eu nunca imaginei que viria te visitar logo aqui. Agora vai pro seu destino, anjo, e ilumina sua nova vida". A noite caia, seu peito doia, suas lágrimas viravam junção de sua pele e da terra. Disse adeus sem querer ter dito. Implorou para vê-la uma última vez, pois naquele momento conseguia sentir seu abraço tão frágil, porém caloroso. Embora sua vontade fosse de um tamanho descomunal, infelizmente não era maior que a morte. "Por favor, me diz alguma coisa. Faz-me ver-te, escutar-te, qualquer coisa! Se estiver aqui e precisar de algo, fala comigo". Ouvira apenas o som do vento e sentia apenas o cheiro das flores. Demorou até finalmente conseguir virar as costas e ir embora. Virava o rosto para encará-la mais uma vez a cada 2 passos. Não iria obter respostas. Não iria ser uma conversa. Foi um monólogo e fim. Adeus então para uma pessoa não tão conhecida, porém tão querida que de um bom jeito fez com que uma pessoa tão cética acreditasse em um céu para cada um, e que no melhor deles o novo anjo iria habitar.
- Você está bem?
- Estou. Agora me deixe em paz, por favor.
- Não fica assim. As pessoas eventualmente irão embora.
- Eu sei.
- Você optou por trabalhar com isso, lembra?
- Eu sei, mas...
- O que?
- Não havia concordado em trabalhar com a morte tão perto assim.
- Há de vir bem mais perto, em ciclos bem mais próximos.
- Eu sei, pelo menos acho saber, lidar com isso. Só não pensei que iria me mudar tanto. Não pensei que ela fosse me tocar em algum canto de mim que não sabia ser delicado.
E assim a abraçou, e mesmo sendo muito confortante saber que há muitos ainda presentes, tenta agora um caminho para abraçar os do outro lado também.
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